E o palhaço o que é?...’
Numa pergunta tão simples, trecho de música ouvida a tempos em circos, festas, ruas e teatros, cabe meu interesse em pensar o corpo cômico enquanto atuante na linguagem do clown em teatro na cidade de Belém do Pará
O olhar sobre o corpo como eixo central no meu trabalho de atriz, sempre permeou meu sentimento de pertencimento a respeito do meu fazer. Ao longo do tempo em que estou no ofício das artes cênicas (teatro), muitas foram as provocações, inconstâncias, descobertas. Muitos foram os indutores. Contudo, quando vejo e revejo meus processos de criação, percebo que sempre tinha como foco de partida, o corpo. Isso parece óbvio já que nossa prática é essencialmente corporal, mas costumamos ver ou até passamos por isso às vezes enquanto atuantes, corpos sem presença física que não despertam o olhar de quem vê.
Nesta perspectiva, o interesse surge pela própria natureza do ofício e da escolha: ser atriz e há 8 anos, ser palhaça. Sendo esta última uma paixão. Fazer rir é quase missão. Pensar o corpo neste sentido, torna-se fundamental para compreender o meu processo criativo. “Como posso ter um corpo mais preciso e presente num estado de palhaça? ”; “De que ponto parte minha construção corporal para determinado trabalho ou como a organizo pra isso?”; “ E o risível ocupa que lugar?”; ”Ser palhaça o que é afinal?”.
Tais questionamentos sobre meu corpo e mais especificamente meu corpo cômico, vêm me acompanhando e inquietando até hoje. Às vezes me ‘pego’ pensando se sou realmente uma ‘boa’ palhaça ou comediante. Por isso o comichão no corpo e sobre ele. Corpo que se move cenicamente de forma organizada para o olhar do outro, que pretende provocar o riso, mergulhado na linguagem clownesca.
Em 2001 chego então ao Grupo Palhaços Trovadores, que tem como universo de pesquisa a linguagem do clown. Dessa forma, entrei em contato com uma experiência corporal bem específica: o corpo de palhaça. Corpo possuidor de uma comicidade particular.
Há 8 anos portanto, vivencio uma outra maneira de perceber e atuar com o meu corpo, mesmo já tendo participado de montagens estruturadas a partir de um corpo cômico, mas fora da linguagem do clown. Descobrir meus ridículos particulares, o que se tenta negar ou ver pouco. Isso é apaixonante. É infantil no melhor sentido da palavra. No treinamento de clown, isso vem à tona. O corpo ‘frouxo’, com possibilidades de ser risível, ingênuo, esperto, criança. Enfim, é um processo de desconstrução das amarras para construir outros olhares sobre o próprio corpo e o mundo.
Para tanto, o treinamento não é simples como pode parecer. É, em alguns momentos, doloroso, pois é um encontro com o que somos. O palhaço é o que é. Por isso o processo torna-se intrigante. Nesta perspectiva, sinto-me mobilizada frente ao universo de possibilidades desde meu corpo de palhaça.
Corpo que se pretende risível, trabalhado e construído pra isso. Mas o que dessa construção é provocador do riso? Esse é o ponto que tento responder ao longo da pesquisa. Portanto, investigo como se dá a organização do meu corpo cômico no corpo do palhaço, ou seja, objetivo compreender como me organizo na sistematização desse corpo enquanto atriz, que tem um clown corporificado, a Neguinha, iniciado há 8 anos e que ainda se constrói e reconstrói a cada novo encontro com o outro. A cada riso ‘inesperado’.
Para embasar a pesquisa, pretendo cercar, a princípio, alguns conceitos como: corpo, corpo cômico, clown, cultura popular e riso/comicidade (não pretendo contudo, neste último conceito, estudar o riso em si, mas o corpo que é construído para provocá-lo). As discussões a respeito de cultura popular, surge pois o Grupo Palhaços Trovadores ‘bebe’ neste universo.
Desse modo, penso em utilizar, a priori, alguns autores que acredito, conversem com meu objeto de estudo. Dentre eles estão: Backtin (1999), no embasamento teórico
sobre a cultura cômica popular para entender o universo em que meu corpo de atriz está inserido, principalmente do ponto de vista da dramaturgia e o corpo cômico; Bergson (2001), trazendo questões sobre a comicidade, o risível; Bolognesi (2003), discutindo o universo clownesco - corpo e estruturas de encenação do palhaço no circo; Burnier (1994) e junto com ele Ferracini (2003), com a pré-expressividade, além do treinamento técnico de clown; Bonfitto (2006), com a proposta do ator-compositor, mais especificamente com conceitos de improvisação; e Merleau-Ponty na discussão de corpo cultural e perceptivo. Outros autores podem se aproximar da pesquisa no decorrer do processo.
Por todas as questões já levantadas, penso que a importância da pesquisa, a princípio, encontrar-se na compreensão do meu processo de trabalho como atriz que procura pensar seu corpo como indutor na busca do estudo do corpo cômico na linguagem do palhaço. Uma atriz que pretende apropriar-se cada vez mais de seu fazer. Contudo, acredito que a investigação, servirá também aos processos de outros atores que pretendem compreender seus fazeres múltiplos, tendo como foco possíveis metodologias de organização e entendimento de seus corpos em cena.
Outro foco de interesse da pesquisa, pode concentrar-se no próprio trabalho dos Palhaços Trovadores, enquanto grupo que investiga a linguagem do clown e que comporta em seus treinamentos técnicos o interesse e o olhar sobre o corpo cômico e suas possibilidades de ação. É portanto, o lugar de onde falo. É onde construo e reconstruo cotidianamente o meu clown.


